Transformado Pela Provação


"A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória incomensurável. Porque não miramos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem". 
(2 Cor 4,17).

  Deus tem um propósito por trás de cada problema. Ele usa as circunstâncias para desenvolver nosso caráter. É pelo fogo que conhecemos a qualidade do ouro.
  Jesus nos alertou dizendo que teríamos problemas no mundo. Ninguém está imune à dor ou livre de sofrer. Nem todos os problemas são grandes, mas todos são importantes para o processo de crescimento que Deus tem para você.
  Os problemas nos aproximam de Deus. O Salmo 33 diz: “O Senhor está perto dos corações feridos, e salva os que estão desanimados” (Sl 33,19).
  É durante períodos de sofrimento que aprendemos a fazer nossas orações mais sinceras, autênticas e honestas para com Deus. No sofrimento, aprendemos coisas a respeito de Deus que não podemos aprender de nenhuma outra forma. Os problemas nos forçam a olhar para Deus e a depender dele em vez de confiar em nós mesmos.
  Você nunca saberá que Deus é tudo o que você precisa até que ele seja tudo o que você tiver.

O PROJETO DE DEUS
  “Sabemos que Deus age em todas as coisas, de modo que trabalhem em conjunto para o bem dos que o amam e são chamados de acordo com os seus desígnios." (Rom 8,28).

   Aqui são enumeradas quatro verdades acerca da providência de Deus:

1º “que Deus age”. É uma certeza que se baseia na verdade de que Deus tem pleno controle e ama a todos nós. A história pertence a Deus. Nós cometemos erros, mas Deus jamais. Deus não comete um erro – porque ele é Deus. Deus age em nossas vidas.
  É Deus quem está no controle. É Ele que está agindo em todas as coisas. É Ele que está por traz da historia. E quando Ele está agindo, quem pode impedi-lo? O próprio Paulo nos questiona: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (v.31).
  Quando Josué precisou assumir a liderança do povo de Israel, às margens do Jordão, ele sabia que enfrentaria guerras e grandes e terríveis dificuldades quando passasse o rio e entrasse na terra prometida para possuí-la. Nesse momento, Deus faz uma promessa para ele: “Ninguém te poderá resistir, todos os dias da tua vida; como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei nem te desampararei” (Js 1.5). Era o que Josué precisava ouvir. Ele conhecia a Deus e sabia que, se o Senhor estivesse com eles, agiria em seu favor, para lhes manifestar o bem.
  Portanto, podemos descansar no Senhor. Podemos confiar. Ele está sempre conosco agindo seja em bons ou maus momentos da nossa vida.

2º “em todas as coisas”. O plano de Deus para nossa vida envolve tudo que nos acontece – erros, pecados, mágoas, doenças, dívidas, acontecimentos infelizes e a morte de pessoas queridas.
  Deus pode fazer o bem nascer, crescer e florescer nas situações mais difíceis. Ele fez isso no calvário. Como poderíamos imaginar de que daqueles troncos secos nasceria uma grande árvore, que dela pudéssemos nos alimentar de seus frutos e abrigar-se a sua sombra?
  Ele tem poder para transformar todo o mal, em nós e no mundo.

3º “para o bem”. Qual é o propósito de Deus? O propósito de Deus é maior que nossos problemas, nossos sofrimentos e até mesmo nossos pecados. Os objetivos do Senhor para nós são os de produzir o bem que esperamos. E principalmente nos dar um futuro. Vida Eterna!

4º “daqueles que o amam e são chamados”. O agir de Deus utilizando todas as coisas para produzir o bem tem um público alvo: os filhos de Deus. O texto não expressa um otimismo generalizado e superficial, dizendo que no final tudo acabará dando certo para todo mundo. Não pode se dar bem quem vive em oposição a Deus, insistindo em seguir o próprio caminho.

  Deus se compromete com aquele que entrega sua vida a Cristo e vive a sua vontade. Ele é fiel com quem é fiel com Ele.
  A carta para a igreja de Esmirna, em Apocalipse capítulo 2, é uma das poucas escritas para uma igreja fiel.
  "Não tenha medo do sofrimento que vai chegar. O diabo vai levar alguns de vocês para a cadeia. Será para vocês uma provação. Mas a tribulação não vai durar mais que dez dias. Seja fiel até à morte. Eu lhe darei em prêmio a coroa da vida". (Ap 2,10)
  Nem sempre compreendemos e muito menos aceitamos o que Deus faz. Ele também não age para nossa comodidade. Mas, sabemos que em todas as coisas Ele age para o nosso bem. Era esta a convicção de José com relação à crueldade de seus irmãos quando o venderam como escravo: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas o Projeto de Deus o transformou em bem, a fim de cumprir o que se realiza hoje: salvar a vida de um povo numeroso” (Gn 50.20).
  Cada problema é uma oportunidade para edificação do caráter. O que acontece exteriormente em sua vida não é tão importante quanto o que acontece dentro de você.
  Pedro disse: “Essas dificuldades vêm para provar que sua fé é pura. Essa pureza de fé vale mais que ouro” (1 Pedro 1,7a). Quando você é refinado pelas provações, as pessoas podem ver o reflexo de Jesus em você.
  Paulo disse: “Se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus, herdeiros junto com Cristo, uma vez que, tendo participado dos seus sofrimentos, também participaremos da sua glória.” (Rom 8,17).

O QUE FAZER? COMO ENFRENTAR?
1º Olhar para Jesus.
  Os problemas não nos levam automaticamente a refletir e a fazer a vontade de Deus. Muitas pessoas se tornam mais amargas em vez de melhorar, e nunca crescem. O modelo  é sempre Jesus.
  Cristo teve um nascimento indigno e uma história de turbulências e aflições. Nasceu entre os animais. No aconchego de um estábulo, Ele derramou suas primeiras lágrimas. Até as crianças mais pobres têm um nascimento mais digno do que Ele teve.
  Quando tinha dois anos, deveria estar brincando, mas já atravessava grandes sofrimentos. Era perseguido de morte por Herodes. Tinha uma inteligência incomum para um adolescente e foi admirado aos doze anos por intelectuais da época. Todavia, tornou-se um carpinteiro. As mãos grossas e o rosto castigado pelo sol escondiam a mais elevada sabedoria que alguém já teve. Discursou sobre o amor, a tolerância e o respeito humano como nenhum pensador. Mas, foi o mais discriminado e incompreendido dos homens.
  Tinha, portanto, todos os motivos para ser uma pessoa tensa, ansiosa, irritada e infeliz, mas, era uma pessoa alegre e tranquila.
  Muitos têm bons motivos para ser alegres, mas estão sempre insatisfeitos. São incapazes de valorizar o que têm, valorizam apenas o que não têm. Tornam-se especialistas em acusar os outros pelos seus conflitos e detestam a vida que possuem.
  Jesus, ao contrário, tinha muito pouco exteriormente, mas fazia muito do pouco. Nele não havia sombra de insatisfação. Reclamação não fazia parte do dicionário de Sua vida. Nunca acusava ninguém por suas misérias. Era forte para enfrentar Seus desafios sem precisar ferir nem agredir ninguém.
  Os homens podiam desistir Dele, mas Ele nunca desistia de ninguém. Tinha consciência de que O feririam sem piedade, mas Ele não desistiria. Havia predito que O humilhariam, iriam cuspir-lhe o rosto e iriam torná-lo um show público de vergonha e dor, mas Ele permaneceu de pé, firme, fitando os olhos dos seus acusadores e suportando com dignidade a sua dor.
  A única maneira de cortá-lo da terra dos viventes era matá-lo, extrair-lhe cada gota de sangue. Ele demonstrou que, mesmo diante do caos, vale a pena viver a vida.
  Podemos chorar e nos angustiar pelas nossas dificuldades e conflitos, mas nunca devemos desistir de nós mesmos. Podemos nos abater, mas nunca desanimar.
  A capacidade de recomeçar tudo, quantas vezes forem necessárias, faz dos fracos, fortes. A firme convicção de continuar sempre lutando, ainda que com algumas derrotas, alimenta o sonho da vitória.
  O pior inverno pode anunciar a mais bela primavera. Sábio é aquela pessoa que consegue ver aquilo que as imagens não revelam. É a pessoa que, ao ver cair a última folha do inverno, é capaz de erguer os olhos e enxergar as flores da primavera que ainda não brotaram.
  Jesus era o único na Sua época que conseguia ver o que ninguém via. À sua frente, só havia pedras e areia, mas Ele conseguia erguer os olhos e ver os campos branquejando, embora estivesse apenas lançando as primeiras sementes na terra.
  Ele causou a maior revolução da História, sem desembainhar uma espada, sem usar qualquer violência. Não precisamos revolucionar o mundo, mas devemos revolucionar as nossas vidas, o nosso espírito, a nossa capacidade de pensar e de ver a vida. Se assim o fizermos, certamente estaremos plantando um jardim onde antes só havia pedras e areia.

2º Lembre-se de que o plano de Deus é bom.
  “Os planos que tenho para vocês são planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro” (Jr 29,11).
  É vital que você se mantenha concentrado no plano de Deus, não no seu problema ou sofrimento. Se você olhar para o mundo, ficará aflito. Se olhar para si, ficará deprimido. Mas, se olhar para Cristo, ficará descansado.   
  O segredo da resistência é lembrar-se de que o sofrimento é temporário, mas sua recompensa será eterna.
  Lembremos mais uma vez a afirmação de Paulo:  “Pois os nossos sofrimentos momentâneos são leves, em relação ao peso extraordinário da glória eterna que eles nos preparam. (2 Cor 4,17).

3º Agradecer
  Paulo escrevendo aos Tessalonicenses diz: “Dêem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus”. (1 Tes 5,18)
  Deus não espera que você seja agradecido pelo mal, pelo pecado, pelo sofrimento ou por suas conseqüências dolorosas neste mundo.
  Deus quer que você seja grato por ele usar os problemas que o afligem para o cumprimento de seus propósitos.
  Jesus disse: “Fiquem cheios de alegria quando isso ocorrer, pois há uma grande recompensa esperando por vocês no céu” (Lucas 6,23).

4º Recuse-se a desistir.
  O Apóstolo Tiago nos diz: “Entendam que os problemas vêm para lhes testar a fé e gerar em vocês perseverança. Mas deixem que esse processo continue até que a perseverança se desenvolva completamente, e descobrirão que se tornaram homens de caráter maduro, de integridade, sem nenhum ponto fraco” (Tiago 1,3-4).
  Quando você compreende as conseqüências eternas do desenvolvimento de se caráter, faz menos orações do tipo “Faze com que eu me sinta melhor” e mais orações do tipo “Usa isso para tornar-me mais semelhante a ti”.
  Você sabe que está amadurecendo quando começa a ver a mão de Deus nos acontecimentos aleatórios e confusos e nas circunstâncias da vida aparentemente sem sentido.
  Quando Pedro fora libertado da cadeia não tinha consciência que Deus estava agindo, somente mais tarde, se deu conta de tal experiência.
  E como sabemos que Deus agiu?
  Pelo sentimento de libertação.
 Quando sentimos que estamos livres que, num momento de dificuldade, saiu um peso de cima de nós, então podemos crer que Deus agiu em nossa vida e nós o acolhemos.
  Se você estiver enfrentando problemas, não pergunte: “por que eu?”. Em vez disso, pergunte: “o que você quer que eu aprenda?”. Então confie em Deus e siga fazendo o que é certo. “Vocês precisam perseverar, de modo que, quando tiverem feito a vontade de Deus, recebam o que ele prometeu” (Hebreus 10,36).

(Pregação Pe. Lino Zandoná. G.O. Bom Jesus. 06/07/2017)

Sim, a Virgem Maria é a Mãe de Deus


Maria no Evangelho de Mateus 1,22-23 é apresentada como Mãe do Emanuel, que significa Deus conosco.

Já no século III, como se deduz de um antigo testemunho escrito, os cristãos do Egito dirigiam-se a Maria com esta oração: “Sob a vossa proteção procuramos refúgio, Santa Mãe de Deus! Não desprezeis as súplicas de nós, que estamos na prova, e livrai-nos de todo perigo, ó Virgem gloriosa e bendita (Da Liturgia das Horas). Neste antigo testemunho, a expressão Theotokos, Mãe de Deus, aparece pela primeira vez de forma explícita.

No século IV, o termo Theotokos é já de uso frequente no Oriente e no Ocidente. A piedade e a teologia fazem referência, de modo cada vez mais frequente, a esse termo, já encontrado no patrimônio de fé da Igreja.

O Concílio de Éfeso, no ano 431, proclamou Maria Mãe de Deus.

A expressão Theotokos, que literalmente significa “aquela que gerou Deus”, à primeira vista pode resultar surpreendente; suscita, com efeito, a questão sobre como é possível que uma criatura humana gere Deus. A resposta da fé da Igreja é clara: a maternidade divina de Maria refere-se só a geração humana do Filho de Deus e não, ao contrário, à sua geração divina. O Filho de Deus foi desde sempre gerado por Deus Pai e é Lhe consubstancial. Nessa geração eterna, Maria não desempenha, evidentemente, nenhum papel. O Filho de Deus, porém, há dois mil anos, assumiu a nossa natureza humana e foi então concebido e dado à luz por Maria.

Proclamando Maria Mãe de Deus, a Igreja quer, portanto, afirmar que Ela é a Mãe do Verbo encarnado, que é Deus. Por isso, a sua maternidade não se refere a toda a Trindade, mas unicamente à segunda Pessoa, ao Filho que, ao encarnar-se, assumiu dela a natureza humana.

A maternidade é relação entre pessoa e pessoa: uma mãe não é Mãe apenas do corpo ou da criatura física saída do seu seio, mas da pessoa que ela gera. Maria, portanto, tendo gerado segundo a natureza humana a pessoa de Jesus, que é a pessoa divina, é Mãe de Deus.

Ao proclamar Maria Mãe de Deus, a Igreja professa com uma única expressão a sua fé acerca do Filho e da Mãe. Essa união emerge já no Concílio de Éfeso. Com a definição da maternidade divina de Maria, os padres queriam evidenciar a sua fé à divindade de Cristo. Não obstante as objeções, antigas e recentes, acerca da oportunidade de atribuir esse título a Maria, os cristãos de todos os tempos, interpretando corretamente o significado dessa maternidade, tornaram-no uma expressão privilegiada da sua fé na divindade de Cristo e do seu amor para com a Virgem.

Seguindo o exemplo dos antigos cristãos do Egito, os fiéis CATÓLICOS entregam-se àquela que, sendo Mãe de Deus, pôde obter do divino Filho as graças da libertação dos perigos e da salvação eterna.

Ademais, como diz uma fórmula antiga, Maria é a inimiga de todas as heresias. O auxílio da Virgem Santíssima no combate às insídias do demônio tornou-o consciente de que aquela expressão conciliar “não se tratava de exageros de devotos, mas de verdades hoje mais do que nunca válidas” A Igreja afirma o título de Maria como “advogada, auxiliadora, socorro e medianeira” Não seria por desejo divino, destarte, que a graça da unidade dos cristãos se operasse por meio da Mãe de Jesus?...

"De Maria nunquam satis – de Maria nunca se dirá o suficiente"

(fonte: caritatem.com.br)

Adoração, Devoção e Veneração: existe diferença?


Conhecer com profundidade estes conceitos pode fazer toda a diferença em nossa vida espiritual.

Parece muito óbvio o significado das palavras: devoção, veneração e adoração, mas não é tão simples assim. A devoção verdadeiramente católica foi perdendo-se ao longo do tempo, dando origem a várias expressões de culto, subjetivas, confusas e desconexas, as quais, na prática, acabam se tornando cada vez mais infrutíferas e estéreis. Sendo assim, precisamos redescobrir o verdadeiro sentido da devoção católica aos anjos e aos santos, e o que esse culto de veneração tem a ver com o de adoração, devido somente a Deus. Dessa forma, nossa espiritualidade poderá retomar o vigor da devoção dos santos e produzir muitos frutos, contribuir para a salvação das almas e para maior glória de Deus.

A devoção católica e a perda de seu sentido
A palavra “devoção” tem raiz no latim devotione, e significa afeição, dedicação, sacrifício e culto. Na teologia e na espiritualidade católica, devoção é um ato de religião. São Tomás de Aquino diz que devoção é “a vontade pronta para se entregar a tudo que pertence ao serviço de Deus”1, ou seja, ao culto divino. Sendo assim, toda a verdadeira devoção tem como fim último o próprio Deus.

Na Idade Média – período que a maioria dos historiadores contemporâneos insiste erroneamente em chamar de “Idade das Trevas” –, as práticas de devoção se davam quase que exclusivamente no culto comunitário. Na chamada cristandade, o ato de religião, de dar a Deus o que é de Deus, era prestado por toda a sociedade. No entanto, a partir desse período histórico, a sociedade corrompeu-se gradativamente, chegando a um arrefecimento da fé tal, que o culto público não era mais viável. Como resposta às necessidades desse tempo, surgiu na Igreja o movimento que ficou conhecido como devotio moderna.

A devotio moderna rapidamente se espalhou por toda a Europa Ocidental. Nesse contexto histórico, surgiu o conhecido livro “Imitatio Christi” ou “Imitação de Cristo”, atribuído a Tomás de Kempis, cônego regular de Santo Agostinho. Esta obra destinava-se a todos, sem exceção, principalmente àquelas pessoas que desejavam transformar e santificar o seu quotidiano. No entanto, a devotio moderna não teve somente bons frutos, como o célebre livro de Kempis. O Movimento propunha um modelo de vida religiosa que colocava sacerdotes e leigos no mesmo nível, sem distinções hierárquicas. Além disso, a tradução de trechos das Sagradas Escrituras para outros idiomas e o subjetivismo nas práticas de devoção, de certa forma, abriram caminho para o protestantismo.

Em nossos dias, a maioria das pessoas não entende mais o significado da palavra devoção. Para grande parte dos católicos de hoje, as práticas devocionais não passam de sentimentalismo subjetivista, que não os leva a uma verdadeira conversão. Sendo assim, é urgente recuperar o sentido da palavra devoção, como vontade pronta de entregar-nos inteiramente a Deus, para então passarmos à prática.

Este ato da vontade pode ter como frutos a paz, alegria, sentimentos e consolações. No entanto, não necessariamente todos os atos de devoção terão esses frutos. Na experiência espiritual, sempre sob influxo da graça divina, a devoção pode ser acompanhada de sentimentos e consolações, como normal-mente acontece nos iniciantes mais generosos. No entanto, na devoção pode acontecer também a aridez espiritual, que é bem diferente da tibieza ou mornidão, especialmente com as pessoas mais adiantadas espiritualmente.

Existem várias expressões de devoção na Igreja Católica, que podem ser divididas em duas categorias: a devoção de veneração, que é prestada aos anjos e santos; e a devoção de adoração, que é devida e prestada unicamente a Deus.


A devoção de veneração e o culto às imagens sagradas
A palavra veneração é derivada do latim veneratio – que em grego se diz δουλια (douleuo ou dulia) – e significa “honrar”. A devoção de veneração ou “dulia” é o culto prestado aos santos e aos anjos, enquanto servos de Deus na ordem sobrenatural. Entre os santos, o Patriarca São José tem proeminência na Igreja Católica, por ter sido pai adotivo de Jesus Cristo e guardião da Sagrada Família. Por isso, São José recebe o culto “protodulia” ou “suma dulia”, que significa a primazia e a superioridade do seu culto em relação aos outros santos. Outra exceção é veneração prestada a Santíssima Virgem Maria, que – por sua dignidade excelsa de Mãe de Deus, que a coloca acima de todos os anjos e santos, inclusive de São José – recebe o culto de hiperdulia, do grego υπερδουλεια, que significa a mais alta veneração prestada aos santos.

A devoção de veneração é expressa externamente pela reverência às imagens dos santos e dos anjos (estátuas, esculturas, pinturas, ícones). O culto de veneração é prestado também às relíquias dos santos.

O culto das imagens sagradas na Igreja Católica não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos (Dt 6, 13-14). Pois, “a honra prestada a uma imagem remonta ao modelo original” e “quem venera uma imagem, venera nela a pessoa representada”. A honra prestada às imagens é uma “veneração respeitosa”, e não uma adoração, que é devida somente a Deus. “O culto da religião não se dirige às imagens em si mesmas como realidades, mas as vê sob o seu aspecto próprio de imagens que nos conduzem ao Deus encarnado. Ora, o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não se detém nela, mas se orienta para a realidade de que ela é imagem”2. Sendo assim, o culto de veneração aos anjos e aos santos em suas sagradas imagens não é um fim em si mesmo, mas tem por finalidade a elevação das almas a Deus e a maior glória da Santíssima Trindade.


A devoção de adoração e o culto de veneração
A palavra “adoração” é derivada do latim “adoratio”, que tem sua raiz nos termos “ad oro”, e significa “oro ou rogo-te”, em grego se diz λατρεια (latria) – e significa “adorar”, é um termo bíblico e teológico que significa a devoção ou culto que é prestado somente a Deus. O próprio Jesus Cristo nos deu essa Lei: “Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto” (Lc 4,8; cf. Dt 6,13).

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que “a adoração é o primeiro ato da virtude da religião. Adorar a Deus é reconhecê-Lo como tal, Criador e Salvador, Senhor e Dono de tudo quanto existe, Amor infinito e misericordioso”3.

Adorar a Deus é reconhecer, com respeito e submissão absoluta, o nosso na-da, que só por Deus existimos. Adorar a Deus é louvá-Lo, exaltá-Lo e humilhar-nos na sua presença, confessando com gratidão que Ele fez grandes coisas em nós e que o seu Nome é santo, como fez a Virgem Maria no Magnificat (cf. Lc 1, 46-49). Além disso, a adoração do Deus único liberta-nos do fechamento em nós mesmos, da escravidão do pecado e da idolatria do mundo4.

Assim, vimos que toda a verdadeira devoção tem Deus como seu fim último. Sendo assim, a devoção de veneração, prestada aos anjos e aos santos, somente tem valor se nos faz crescer na fé, na esperança e na caridade, se nos leva a amar Deus de todo nosso coração, com toda nossa alma, com todo nosso espírito (cf. Mt 22, 37; Dt 6, 5) e ao próximo como a nós mesmos (cf. Mt 22, 39; Lv 19, 18). Na veneração dos anjos e dos santos, glorificamos Deus, que é o fim último não somente da nossa devoção, mas também de toda a nossa existência. Dessa forma, compreendemos que a devoção de adoração diferencia-se da de veneração somente na forma que prestamos nosso culto a Deus: na adoração, prestamos culto a Deus em si mesmo; e na veneração, a Ele também, mas em suas criaturas. Assim, entendemos que não há nenhuma contradição entre o mandamento divino: “Ao Senhor teu Deus adora-rás, só a Ele prestarás culto” (Lc 4,8; cf. Dt 6,13), e a devoção católica de veneração aos anjos e aos santos.

Referências:
1 SANTO TOMÁS DE AQUINO. ST II-II, Q 82, A 1.
2 PAPA JOÃO PAULO II. Catecismo da Igreja Católica, 2132.
3 Idem, 2096.
4 Cf. idem, 2097.

(Por Natalino Ueda, via Canção Nova)